Quase toda família passa por isso em algum momento. O pai conta a mesma história duas vezes no mesmo almoço. A mãe pergunta de novo a que horas é o aniversário do neto, e a resposta foi dada meia hora antes. Alguém comenta baixinho na cozinha: “isso é da idade, não é?”.

Às vezes é. Às vezes não é. A perda de memória recente em idosos tem muitas causas, e parte delas tem tratamento. Este texto foi escrito para quem convive e percebeu a mudança: o filho, a filha, a esposa, o marido. A ideia é ajudar a separar o esquecimento comum do envelhecimento daquele que merece avaliação, sem susto e sem adiar o que não deve ser adiado.

Um recado antes de seguir: aqui o assunto é o esquecimento que chega devagar, ao longo de meses. Confusão ou esquecimento que começam de repente, de um dia para o outro, são outra situação e pedem atendimento de urgência.

O que muda na memória com a idade

O cérebro envelhece como o resto do corpo e fica um pouco mais lento para buscar o que guardou. O nome de um conhecido some na hora de cumprimentar e aparece dez minutos depois, já no carro. A pessoa entra na sala, esquece o que foi pegar e lembra assim que volta para a cozinha. Aprender a usar o celular novo leva mais tempo e pede repetição.

Esse esquecimento tem algumas marcas:

  • a informação volta depois, sozinha ou com uma dica;
  • a pessoa percebe que esqueceu e costuma comentar, às vezes rindo de si mesma;
  • a vida continua organizada: contas pagas, remédios tomados, compromissos cumpridos, mesmo que com ajuda de agenda ou de lembrete no celular;
  • o quadro não piora de forma visível de um semestre para o outro.

Quem usa lista de supermercado, anota a consulta no calendário da geladeira e deixa a chave sempre no mesmo prato está fazendo exatamente o que deveria. Isso é adaptação, e não doença.

Sinais de que o esquecimento não é só da idade

O que chama a atenção do neurologista é a memória recente que falha a ponto de atrapalhar o dia e que vai se repetindo. Alguns exemplos que as famílias costumam contar:

  • Ele faz a mesma pergunta várias vezes na mesma tarde, e a cada vez parece ouvir a resposta pela primeira vez.
  • Ela esqueceu o fogão aceso, e não foi a primeira vez.
  • Uma conversa importante da semana passada sumiu por inteiro, sem nenhuma lembrança, nem com dica.
  • As contas começaram a atrasar, ou aparecem pagas em dobro, numa casa onde isso nunca acontecia.
  • Os comprimidos sobram na caixa ou acabam antes da hora.
  • Ele se perdeu dirigindo num caminho que faz há anos, como o da casa até a quadra da filha.
  • A receita de sempre saiu errada, ou ela deixou de cozinhar sem explicar o motivo.
  • Apareceu uma desconfiança nova: ele acha que alguém mexeu nas coisas dele quando, na verdade, foi ele mesmo que guardou em outro lugar.
  • Ela ficou mais quieta nas conversas de família, mais irritada, ou abandonou atividades de que gostava.

Um detalhe ajuda a entender o quadro: muitas vezes quem está esquecendo não percebe, ou diz que está tudo bem. Quem nota é a família. Por isso o relato de quem convive pesa tanto na avaliação.

Causas de perda de memória em idosos

Quando o assunto é memória, a primeira palavra que vem à cabeça costuma ser Alzheimer. Ele é uma causa importante, mas está longe de ser a única. As causas de perda de memória em idosos podem ser divididas, de forma simples, em dois grupos.

Causas que podem melhorar quando tratadas

Essa é a parte que mais justifica não esperar. Vários problemas frequentes depois dos 60 anos atrapalham a memória e a atenção. Quando são encontrados e tratados, o quadro pode melhorar.

  • Depressão. No idoso, ela nem sempre aparece como tristeza. Pode vir como desânimo, perda de interesse, lentidão para pensar e queixa de esquecimento.
  • Remédios somados. Remédios que dão sono ou que agem no sistema nervoso podem deixar a pessoa mais lenta e esquecida, principalmente quando se acumulam. Muitas vezes cada um foi receitado por um médico diferente, em épocas diferentes, e ninguém olhou a lista inteira de uma vez.
  • Tireoide funcionando menos e falta de vitamina B12, que aparecem em exames de sangue simples.
  • Sono ruim. Quem ronca alto e para de respirar durante a noite, a chamada apneia do sono, ou quem dorme mal há muito tempo, acorda sem atenção e grava pior o que acontece no dia.
  • Audição e visão. Ninguém lembra do que não chegou a ouvir. Às vezes o “esquecimento” é uma conversa que nunca foi escutada por inteiro.
  • Álcool em excesso, ao longo de anos.
  • Hidrocefalia de pressão normal, um acúmulo de líquido dentro do cérebro que costuma vir junto com passos curtos e arrastados e perda de urina. É menos comum, mas não pode passar despercebida.

Doenças que afetam o cérebro aos poucos

Aqui entram as demências. A doença de Alzheimer é a mais conhecida e muitas vezes começa justamente pela memória recente. Há outras: a demência vascular, ligada a pequenos AVCs e a anos de pressão alta ou diabetes sem controle; a demência com corpos de Lewy, que pode trazer alucinações visuais e grandes oscilações de um dia para o outro; e a demência frontotemporal, que costuma mudar o comportamento antes da memória.

Existe também um meio-termo, chamado comprometimento cognitivo leve. A memória está abaixo do esperado para a idade, os testes mostram isso, mas a pessoa continua independente na rotina. Nem todo mundo com esse quadro evolui para demência. Ele pede acompanhamento, e não pânico.

Nenhuma dessas doenças se diagnostica por um teste de celular ou por uma lista de sintomas lida na internet. Quem esclarece o que está acontecendo é a avaliação médica completa.

O que a família pode fazer antes da consulta

  1. Anote exemplos concretos, com data. “Em outubro, esqueceu que a neta tinha almoçado com ele no domingo.” Um exemplo bem descrito vale mais do que “ele anda esquecido”.
  2. Tente situar quando começou e se a mudança veio aos poucos, em degraus ou mais rápido nos últimos meses.
  3. Junte todos os remédios numa sacola, incluindo os de farmácia, os naturais e os receitados por outros médicos. Se for mais prático, fotografe as caixas.
  4. Separe os exames recentes de sangue e de imagem, se houver.
  5. Combine quem vai junto. Nas queixas de memória, o relato de quem convive com o paciente ajuda muito a avaliação, e vale ir acompanhado.

Como falar com o seu pai ou a sua mãe

Muitas famílias travam nesta etapa. Ninguém gosta de ouvir que está esquecendo, e ninguém quer magoar quem ama. Algumas atitudes ajudam:

  • converse em particular, num momento calmo, longe de discussão e da mesa cheia de gente;
  • comece pelo cuidado, e não pela falha: “quero que a gente faça uma revisão completa da sua saúde” costuma ser mais bem recebido do que “você está esquecendo tudo”;
  • evite testar a pessoa na frente dos outros, com perguntas como “lembra o que eu falei ontem?”;
  • se a família tiver um médico de confiança, a sugestão pode partir dele.

Também é comum o idoso dizer que está ótimo e recusar a consulta. Não force num dia ruim. Volte ao assunto em outro momento, com outra pessoa da família, ou aproveite uma queixa que ele mesmo tenha, como sono, tontura ou pressão, para incluir a memória na conversa com o médico.

O que esperar da avaliação

Na consulta, o neurologista ouve a história contada pelo paciente e pela família, faz o exame neurológico e aplica testes de memória, atenção e linguagem. Conforme o caso, pede exames de sangue e de imagem do cérebro. Com essas informações, dá para dizer se existe um problema, qual a causa mais provável e qual o próximo passo.

Quando a causa é tratável, o tratamento é dirigido a ela. Quando se trata de uma doença que acompanha a pessoa pelo resto da vida, ainda há muito a fazer: existem tratamentos com remédio e sem remédio, indicados pelo médico depois da avaliação, e orientação para a família sobre rotina, segurança em casa e cuidados com quem cuida.

Avaliação de memória em Brasília

O Dr. Marcos Estrela é neurologista (CRM 2910-DF, RQE 1903) e atende adultos e idosos no Centro Clínico Oswaldo Cruz, SHLS 716, Conjunto F, Sala 604, na Asa Sul. O atendimento é particular, e o consultório não atende convênio.

Se você percebeu mudanças na memória de alguém da família, fale com o consultório pelo WhatsApp, no botão desta página. Ali você tira dúvidas sobre a primeira consulta e pode perguntar se ela pode ser feita por telemedicina.