Urgência
Perda de memória repentina em idosos: quando é urgência
Perda de memória repentina em idosos com fala enrolada, boca torta ou fraqueza é urgência: ligue 192. Veja as causas agudas e o que fazer em casa.
Se uma pessoa idosa ficou confusa ou esquecida de repente, e junto apareceram fala enrolada, boca torta, fraqueza ou formigamento de um lado do corpo, dificuldade para entender o que se diz a ela ou para enxergar, ligue 192 (SAMU) agora. Não espere passar, não espere a consulta marcada, não leve para casa para observar. Esses podem ser sinais de AVC, e no AVC cada minuto conta.
Se a confusão veio de repente, mas sem esses sinais, a avaliação também precisa acontecer no mesmo dia, em pronto-socorro ou pronto atendimento. O restante deste texto explica por quê, com calma.
Repentino é diferente de aos poucos
A perda de memória que vem aos poucos se mede em meses e anos. A família percebe olhando para trás: “no Natal passado ela já estava assim”. A perda de memória repentina em idosos é outra situação. Ela se mede em horas ou em poucos dias. Na terça, o pai conversava normalmente. Na quinta, não reconhece o quarto onde dorme há vinte anos.
Esse começo rápido quase sempre aponta para um problema agudo, que está acontecendo agora no corpo ou no cérebro. Muitos desses problemas têm tratamento, e quanto antes forem identificados, melhor.
Como a confusão aguda costuma aparecer
Os médicos chamam esse quadro de delirium, ou estado confusional agudo. Ele tem um jeito próprio:
- a pessoa não consegue prestar atenção e perde o fio da conversa no meio da frase;
- confunde o dia, o lugar e, às vezes, as pessoas da família;
- oscila muito: fica razoável de manhã e piora no fim da tarde ou à noite;
- pode ficar agitada, querendo sair de casa de madrugada, ou o contrário, sonolenta e apagada, difícil de despertar;
- às vezes vê coisas que não existem, como bichos andando na parede.
A forma quieta engana. O idoso que passa o dia dormindo e responde pouco pode estar tão doente quanto o que está agitado, e muitas famílias acham que ele só está cansado.
As causas mais comuns
AVC e ataque isquêmico transitório
No AVC, uma parte do cérebro fica sem sangue ou sofre um sangramento. Na maioria das vezes ele aparece com sinais claros, como os do início deste texto. Alguns AVCs, porém, atingem áreas ligadas à memória e à atenção e se mostram mais como confusão do que como paralisia.
Há também o ataque isquêmico transitório: os sintomas aparecem e somem em minutos ou poucas horas. Mesmo que tudo volte ao normal, ele é um aviso de que um AVC pode vir e precisa de avaliação de urgência do mesmo jeito.
Infecções
Infecção urinária e pneumonia estão entre as causas mais frequentes de confusão súbita no idoso. E, nessa idade, a infecção nem sempre dá febre. Às vezes o primeiro sinal, e o único por um tempo, é a mudança no comportamento. Ardência para urinar, urina com cheiro forte, tosse ou falta de ar ajudam a desconfiar, mas podem não estar presentes.
Efeito de remédio
Um remédio novo, uma dose que aumentou, uma combinação que não deu certo. Também é comum o erro de dose: a pessoa tomou o comprimido duas vezes porque não lembrava se já tinha tomado. E parar de uma vez, por conta própria, um remédio de uso contínuo pode desencadear o mesmo problema. Qualquer mudança na receita nos dias anteriores à confusão deve ser contada ao médico de plantão.
Desidratação
O idoso sente menos sede e muitas vezes bebe pouca água de propósito, para não precisar ir ao banheiro durante a noite. Em Brasília, os meses de seca agravam a situação. Diarreia, vômitos, febre ou remédios que fazem urinar mais completam o quadro. A desidratação pode alterar o sódio do sangue e deixar a pessoa confusa e sonolenta.
Açúcar no sangue alto ou baixo
Em quem tem diabetes, principalmente quem usa insulina ou alguns comprimidos que baixam a glicose, o açúcar baixo pode causar suor frio, tremor, fala estranha e confusão, às vezes parecido com um AVC. O açúcar muito alto, por outro lado, desidrata e também confunde. Se houver aparelho de glicemia em casa, medir é útil e rápido, mas não substitui a avaliação.
Outras causas que entram na lista
- Pancada na cabeça, mesmo leve. Em idosos, principalmente nos que usam remédio para afinar o sangue, pode se formar um hematoma que cresce devagar e só dá sintomas dias ou semanas depois da queda.
- Crises epilépticas, nem sempre com convulsão evidente.
- Intestino preso há dias, retenção de urina e dor sem tratamento, que parecem pequenas mas desorganizam o idoso frágil.
- Internação ou cirurgia recentes.
- Interrupção brusca da bebida em quem bebia todos os dias.
Existe ainda um quadro chamado amnésia global transitória. De repente, a pessoa perde a memória recente e passa horas repetindo as mesmas perguntas, “que dia é hoje?”, “o que eu vim fazer aqui?”, mas continua sabendo quem é e reconhece a família. Costuma passar em menos de um dia. Mesmo assim, essa conclusão só vem depois de afastar AVC e outras causas no pronto-socorro.
O que fazer, na prática
- Sinais de AVC, convulsão, dificuldade para acordar ou falta de ar: ligue 192.
- Confusão que começou em horas ou em poucos dias, sem esses sinais: leve ao pronto-socorro no mesmo dia.
- Anote o horário em que os sintomas começaram, ou a última hora em que a pessoa foi vista bem. No AVC, essa informação muda o tratamento possível.
- Leve a lista de remédios ou as próprias caixas.
- Não ofereça comida, água ou comprimido a quem está sonolento, engasgando ou com a boca torta.
Uma observação para quem já cuida de alguém com demência: a piora brusca também é sinal de alerta. Quando a mãe que tem Alzheimer fica muito mais confusa de um dia para o outro, muitas vezes não é a doença que avançou de uma vez. Uma infecção, um remédio ou outra causa aguda precisam ser investigados, como em qualquer idoso.
Depois da urgência
Passada a fase aguda, ficam as dúvidas sobre o que causou o episódio, se a memória vai voltar ao que era e como evitar que ele se repita. A recuperação do delirium pode levar dias ou semanas, e alguns idosos demoram mais para retomar o ritmo de antes. Em parte deles, o episódio revela uma dificuldade de memória que já existia e passava despercebida.
Depois de um AVC ou de um ataque transitório, o acompanhamento neurológico ajuda a investigar a causa e a reduzir o risco de um novo evento, junto com o controle da pressão, do diabetes, do colesterol e do ritmo do coração.
Acompanhamento neurológico em Brasília
O consultório não é o lugar da urgência. Diante dos sinais descritos no início, o caminho é sempre o 192 ou o pronto-socorro.
Para o que vem depois, investigar a causa, rever os remédios e acompanhar a memória, o Dr. Marcos Estrela, neurologista (CRM 2910-DF, RQE 1903), atende no Centro Clínico Oswaldo Cruz, SHLS 716, Conjunto F, Sala 604, Asa Sul. O atendimento é particular e não inclui convênio. Para marcar, fale com o consultório pelo WhatsApp, no botão desta página.
Perguntas frequentes
Confusão que vem e vai também é urgência?
É, quando começou de repente. Oscilar ao longo do dia é típico da confusão aguda, e os sintomas de AVC também podem ir e voltar. Leve para avaliação no mesmo dia e ligue 192 se houver fala enrolada, boca torta ou fraqueza.
Infecção urinária pode mesmo deixar o idoso confuso?
Pode. Em pessoas idosas, infecções como a urinária e a pneumonia às vezes se manifestam primeiro como confusão, mesmo sem febre. Só a avaliação médica e os exames de laboratório confirmam a causa.
O que dizer ao atendente do SAMU?
Diga a idade, o que mudou, a hora em que começou ou em que a pessoa foi vista bem pela última vez, e os sinais que você está vendo, como fala enrolada ou fraqueza. Siga as orientações por telefone até a equipe chegar.
Meu pai caiu, bateu a cabeça e parecia bem. Preciso me preocupar?
Em idosos, principalmente nos que usam remédio para afinar o sangue, um sangramento pode se formar devagar e dar sintomas só dias depois. Se aparecerem confusão, sonolência, dor de cabeça que piora ou fraqueza nos dias seguintes, leve ao pronto-socorro.
Depois do episódio, a memória volta ao normal?
Depende da causa. Muitas pessoas melhoram conforme o problema é tratado, mas a recuperação pode levar dias ou semanas. O acompanhamento depois da alta mostra o que ficou e o que ainda precisa ser investigado.
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